Silêncio – Uma experiência cinematográfica transcendental e reflexiva

O longa conta a história de dois padres jesuítas, Rodriguez (Andrew Garfield) e Garupe (Adam Driver), que partem para o oriente a fim de encontrar seu antigo mentor, Ferreira (Liam Neeson), que teria sucumbido a repressão local e renegado a Deus publicamente. O filme tem início com a leitura de uma carta de Ferreira contando as mazelas sofridas por cristãos residentes no Japão, enquanto isso é visto o sofrimento destes num longo plano em que pessoas são crucificadas próximos a poços termais, onde os prisioneiros são queimados pelo exército do inquisidor.

Adaptação do romance escrito por Shūsaku Endō em 1966, Silêncio é curiosamente um dos projetos mais pessoais do produtor Scorsese desde Caminhos Perigosos. A obra fala sobre religião, desde a busca pela fé até o seu questionamento. São mais de 2h30 em que acompanhamos a jornada de dois padres jesuítas portugueses (Andrew Garfield e Adam Driver) tentando encontrar um outro padre desaparecido no Japão, justamente num período em que os católicos eram perseguidos.

Em produção há mais de 20 anos, chegando até a ter Daniel Day-Lewis escalado no elenco, o longa pode ser considerado como o projeto da vida de Scorsese. São praticamente três filmes (a jornada dos padres até o Japão; a prisão; a renúncia da fé) que demoram um tempo excessivo para se desenvolverem.

Um dos grandes trunfos da produção está no seu elenco. Garfield vive a melhor fase de sua carreira. Somente em 2016, o ex-Homem-Aranha estrelou Silêncio e Até o Último Homem, de Mel Gibson, oferecendo duas atuações surpreendentes. Mesmo com a sua cara de menino mimado, Garfield mostra força na interpretação do protagonista e nos seus conflitos pessoais. Driver é outro destaque, embora receba menos atenção de Scorsese. Também temos Liam Neeson repetindo a parceria de Gangues de Nova York, com um ar de seriedade e respeito.

A direção de fotografia de Rodrigo Prieto é sólida o suficiente para receber pelo menos uma indicação ao Oscar. As cenas dentro dos vilarejos na floresta são ricas em detalhes, a partir do belo 35mm o clima de tensão é criado a partir de tons mais escuros, já que boa parte do filme explora o esconderijo dos padres no território japonês. Com ótimas tomadas em uma densa neblina, a ideia é pensar sobre a existência de Deus a partir do olhar para a natureza. A iconografia e o apego a cruz e as imagens de Cristo tem dupla função, para os fiéis, é motivo máximo de adoração já para os governantes, instrumentos utilizados para testar a fé. Essa dualidade é geralmente retratada com muito sofrimento, e Scorsese não faz nenhuma questão de afugentar essa justaposição em seu filme.

Silêncio é um filme que oferece uma experiência cinematográfica transcendental e reflexiva, que questiona percepções de vida, crenças e os limites da consciência humana. Uma das melhores obras de 2016, tendo sido completamente injustiçado no Oscar mas que deve perpetuar no futuro como um dos mais importantes filmes de um dos mais importantes cineastas da história.

Silêncio já está disponível em DVD e Blu-ray na 

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